Um Chamado a Todos que Aspiram uma Consciência mais Elevada: Comece Sentir a Dor

Por Beatrice Chestnut

É um momento de revolta em várias frentes. É como se o fino verniz de falsidade que tem coberto a verdade do pior de nós há algum tempo esteja sendo arrancado. Isso foi chamado de mundo pós-verdade, pois nossos líderes rotineiramente colocam fatos comprovados em questão. Mas é como se tudo que estava oculto estivesse sendo exposto agora. O vírus e a violência cuidaram disso. A realidade da ganância, do racismo, da corrupção, do sexismo, do ódio e da insensibilidade em nossa sociedade, que muitos desejavam negar, agora não estão apenas expostos – estão nos matando e nos despedaçando.

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Então o que fazemos agora? O que aqueles de nós que aspiram à consciência superior podem fazer para superar isso e criar uma mudança real para a mudança? Para aqueles de nós que realmente querem ser a mudança que precisamos ver, como nosso sincero compromisso com o trabalho interior e com o apoio ao próximo, especialmente nossos amigos e vizinhos negros, pode ser focado de uma maneira que finalmente possa fazer a diferença e criar uma mudança real, há muito esperada em nossa sociedade?

Acredito que há uma resposta simples que pode, pelo menos, iniciar um processo de cura: podemos sentir a dor.

O que você pode fazer? Você pode sentir a soma total de sua dor, sobretudo com que está acontecendo no mundo e tudo o que você tem dentro de você que, de alguma forma, ressoa com toda a dor, tristeza e indignação que estão surgindo em todos os lugares agora. Todas essas emoções fazem sentido. A insanidade tem sido a negação em curso. E se você é branco, pode tentar – e será apenas uma tentativa – entrar, o máximo que puder, e sentir a dor sentida pelas pessoas negras deste país.

Todos nós que estudamos a personalidade como um caminho para uma maior consciência sabemos que a personalidade humana, ou ego, é um grande mecanismo de prevenção da dor. Especialmente a dor do ego. Mas enquanto não enfrentarmos nossa dor egóica de nível inferior não conseguiremos acessar um nível mais alto de dor ou de alegria. A mais inferior parece a morte. A mais elevada parece arrependimento. Porque você não pode acessar o coração superior sem passar pela porta da consciência do que seu coração inferior sente e evita sentir. O ensino por trás do Eneagrama das Personalidade nos diz que ficamos presos a padrões profundamente enraizados que nos mantêm cegos para nossas dores mais profundas e para nossas mágoas mais importantes. Você tem que lidar com sua dor para ir além do ego. E temos que sentir nossa dor coletiva para criarmos uma sociedade mais justa. E como você pode sentir a dor coletiva – ou a dor de nossos amigos negros, se você não pode sentir a sua própria?

Mas, na medida em que todos ficamos presos à identificação com a perspectiva de nossa personalidade e seu jeito de nos defender contra a consciência do que é real, geralmente não sentimos nossa dor. Nossa personalidade nos ajuda a sobreviver até a idade adulta, mas também atua para nos manter inconscientes de nossas feridas mais cruciais e da dor relacionada a elas, assim como de qualquer emoção que nos faça sentir mal sobre nossa autoimagem do ego. Isso nos mortifica para a realidade da verdade interior.

Agora, a única saída é passar pela dor.

Mas, na medida em que todos ficamos presos à identificação com a perspectiva de nossa personalidade e seu jeito de nos defender contra a consciência do que é real, geralmente não sentimos nossa dor. Nossa personalidade nos ajuda a sobreviver até a idade adulta, mas também atua para nos manter inconscientes de nossas feridas mais cruciais e da dor relacionada a elas, assim como de qualquer emoção que nos faça sentir mal sobre nossa autoimagem do ego. Isso nos mortifica para a realidade da verdade interior.

Agora, a única saída é passar pela dor.

Geralmente contornamos isso sem perceber. Ficamos ocupados fazendo coisas ou anestesiados de uma maneira ou de outra, seja com substâncias, com trabalho ou com qualquer distração dentre uma ampla variedade de distrações e negações. Ficamos viciados em nossos anestésicos e evitamos estar conscientes do nosso sofrimento.

Mas agora não há escolha, se queremos nos salvar. E se quisermos nos tornar humanos e não apenas animais humanos. De muitas maneiras, estamos nos destruindo – individual e coletivamente. Se não agirmos, não sobreviveremos.

Então, aqui está o plano de ação: comece a sentir sua dor. Tudo isso. Por seus próprios ferimentos e por aqueles causados a pessoas negras e a tantos outros em nossa sociedade. A única mudança real vem de dentro.

Nos últimos dias as notícias do assassinato de George Floyd vêm enchendo os noticiários e a atmosfera e os protestos se espalham e crescem pelo mundo, não devemos desviar o olhar. Devemos enfrentar os fatos e a verdade do pior de nós, e devemos sentir o quanto ver e viver através disso dói. Sem anestesia. Enquanto evitamos estar conscientes, isso continua a apodrecer. Fingir que não está lá não faz desaparecer. Isso apodrece nossas comunidades por dentro. É hora de ir direto para a ferida.

A única maneira de as coisas mudarem é se todos nós rompermos nossa negação, entrarmos no cerne da dor e ficarmos ali por um tempo. Cada um tem capacidade diferente para lidar com isso – e tudo bem. Ninguém deve se julgar por não conseguir entrar em contato com a dor que passou a vida inteira tentando superar. Isso é penas a natureza humana tentando evitar a dor. Mas se você quiser nos ajudar a elevar o nível de consciência coletiva para que as coisas possam mudar, você precisará trazer a sua consciência para aquilo que dói.

A única maneira de acordarmos e agirmos para fazer o que é certo é se sentirmos dor suficiente. Quando conseguirmos sentir a dor encontraremos a motivação para mudar as realidades sombrias, assustadoras e horríveis de desigualdade, injustiça e ignorância.

Talvez se pudermos registrar dor suficiente, podemos parar de destruir o planeta e de tolerar o intolerável. Talvez se todos realmente puderem sentir sua raiva, sua tristeza e sua dor, sem destruir mais, mas enfrentando completamente e deixando que sejam sentidas, a consciência coletiva de nosso sofrimento pode transmutá-la em paz e amor.
Sinto a dor no ar agora quando me desloco ao redor do mundo. Fiquei tentado desviar o olhar. Me peguei trocando de canal quando o joelho estava no pescoço repetidamente. E eu me parei. Me fiz olhar. Eu me deixei chorar. Eu ainda estou chorando. Espero que você chore comigo. Há muito o que chorar agora.

Talvez se deixarmos o nosso sofrimento nos despertar, podemos nos afastar de centenas de anos de inconsciência e seguir em direção à luz, mas somente se tivermos a coragem de enfrentar nossa escuridão. Vamos deixar o sofrimento entrar para que possamos finalmente agir para fazê-lo desaparecer. Sejamos corajosos o suficiente para deixa-lo entrar e nos levar para um lugar mais alto – dentro de nós mesmos e dentro do nosso mundo.

Se você não sentir sua dor – ou a dor dos outros – não se julgue. Não é fácil. Mas não pare de tentar. Mantenha a pressão sobre si mesmo para despertar para seu próprio sofrimento – com compaixão. Entenda seus bloqueios internos, a forma específica das defesas do seu ego que invisivelmente interrompem a conexão entre você e seu acesso ao seu coração. Não se isole nisso, encontre suporte. Aprenda tudo o que puder sobre o que o protege de experimentar toda a força de sua dor em particular e isso permitirá que você crie ou limpe um canal para sentir mais profunda simpatia pelas pessoas ao seu redor. O Eneagrama pode ajudá-lo a fazer isso. Todos nós instintivamente nos afastamos da verdade de nossas profundezas emocionais de maneiras específicas de cada Tipo. Apenas continue.

Continue observando e nomeando com amor os obstáculos dentro de você para sentir sua dor e removê-los até abrir seu coração. O destino de nosso povo, nossa democracia, nossas comunidades e nossa terra dependem disso.
O que significa sentir a dor? Que bem pode resultar disso? Primeiro, você irá parar de desperdiçar tanta energia, tirando experiências emocionais difíceis da sua consciência – passado, presente e futuro. Você criará a atmosfera para uma experiência compartilhada com seus companheiros humanos, afundando na dor coletiva que nós, como cultura, nunca enfrentamos e trabalhamos completamente.

Certamente, o fundamento mais profundo de nossa dor coletiva ao racismo é a crueldade da escravidão. Existem todas as políticas e preconceitos institucionais e individuais que reforçam a supremacia branca e todos nós que não somos negros nos entorpecemos de maneiras diferentes para negar efetivamente a dor da escravidão. Também não abordamos a dor da brutalidade perpetrada sobre os negros durante a luta pelos direitos civis. Por que isso tinha que ser uma luta? Por que essa mesma luta ainda está acontecendo hoje?

Como psicoterapeuta, sei que a única saída do sofrimento é através dele. Todo mundo tem sua própria estratégia inconsciente preferida para escapar da dor. Os americanos tendem a fazer isso mais do que as pessoas em outros lugares. Na Alemanha e na África do Sul, eles lidaram com seus traumas culturais de maneira diferente. Eles fizeram o difícil trabalho de cura emocional. Talvez seja algo sobre nossa cultura de individualismo ou materialismo, capitalismo ou consumismo – mas não enfrentamos nossa dor. E agora ela está explodindo ao nosso redor, finalmente. Nos parou em nossas jornadas. Vamos acabar com a anestesia.

A única saída é através de todas as diferentes formas de dor e sofrimento que adiamos, negamos, deprimimos e medicamos. Isso acabou agora. Se não sentirmos de bom grado, seremos simplesmente forçados a fazê-lo. Nós podemos correr, mas não podemos mais nos esconder da infecção, da insurreição e da crucificação. Hora de experimentar nossa dor humana para ser elevada e redimida. Se não nos virarmos conscientemente para enfrentar nosso território subterrâneo (nossa sombra), ela nos dominará. Está nos possuindo.

Nunca foi tão fácil encontrar um ponto de acesso à dor como agora. Antes da semana passada, já havia todos os tipos de feridas abertas nos olhando – a dor da perda, o medo da morte, a devastação da calamidade econômica, a ansiedade da sobrevivência e o crescente choque e opressão relacionados ao aumento do autoritarismo nos Estados Unidos, enquanto nossos líderes zombam de nosso sistema de justiça e o presidente joga golfe e tuíta enquanto 100.000 pessoas morrem. O vírus ainda aumenta, número de mortos não diminui. As pessoas no poder defendem políticas que provam que os ricos são mais importantes que os pobres e que os brancos têm prioridade sobre todos os outros.

Não evite, não fique entorpecido, não se distraia, não beba, não entre no coma da Netflix, não dê desculpas, não diga que está muito ocupado, e não pense que você já está fazendo isso se não estiver. Apenas sinta a dor. Tudo isso. Dê muito espaço. Peça por ajuda. Crie vínculos com outras pessoas que também se atrevem a sentir. Não desvie o olhar do joelho no pescoço ou dos profissionais de saúde no inferno, ou da falta de liderança, da ruína econômica ou da desigualdade ao nosso redor. Apenas sinta a dor, por favor. Não vai durar para sempre. E é nossa única saída.